Inovação na China: é possível?

23/10/2008

por Claudio Mazzola

É comum neste espaço alguns posts tratarem sobre a China. Motivos não faltam.

O post “O que realmente quer a China” cabe aqui confessar, foi uma tentativa um pouco confusa, porque pretensiosa em análise crítica, ao tentar convencer o leitor a encarar de forma mais cética toda publicidade sobre a maior nação em ascensão no mundo.

É inegável que em termos de escala, a produção científica, tecnológica e econômica chinesa bate qualquer país com menos de 1 bilhão de habitantes. Este vigor, porém, não pode ser encarado como sinônimo de um país vanguardista cujo pensamento competitivo está baseado na “destruição criativa”.

Rob Lewis em seu artigo Can open innovation save the West explica de uma forma mais clara e objetiva que embora na China exista um sistema de educação que favorece a ciência e a tecnologia, uma cultura que valorize a atividade econômica e um mercado em potencial não há nas ordens do dia uma agenda pró-inovação como, por exemplo, nos países ocidentais.

“Research and development isn’t the same as innovation but it’s terribly similar.”

Ele também ressalta que para um país estimular a inovação é necessário muito mais do que simplesmente proteger da propriedade intelectual, mas principalmente garantir o fluxo livre da informação.

Logo, tal ceticismo do post anterior quanto a importância da China “potência mundial” não provém somente da cultura generalizada em desrespeitar a propriedade intelectual alheia, mas principalmente porque há um controle excessivo do Partido no acesso e divulgação da informação. Ou seja, no primeiro caso o estado faz pouco caso. Já no segundo, atua de forma intensa. Uma contradição!

Resumindo: como o sistema político é comunista, a informação dificilmente estará “democratizada”. Assim, modelos de inovação como o open ficam praticamente inviáveis por lá.

Por outro lado,

“(…) open innovation could be the opportunity that Western economies are looking for when it comes to competing with the emerging East. It still has a way to go before it becomes standard practice here, but in countries like China, where state censorship of the internet is the norm, it’s inconceivable.

Quem sabe seja esta a pedra para os países desafiarem este Sansão asiático.

 

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3 Comments Add your own

  • 1. Verónica Savignano  |  24/10/2008 at 19:09

    Olá Claudio!
    Alguns dias atrás li um artigo na Business Week
    Funding Invention Vs. Managing Innovation
    que apresenta um panorama beeem diferente do artigo do Lewis. Os autores (Hagel and Brown, autores de livro sobre inovação na Ásia) afirmam que os Estados Unidos têm muito a aprender da China.
    A idéia do artigo é:
    Em Ocidente, os executivos ainda focam na necessidade de financiamento para invenções (mentalidade século XX). Já em Oriente, as empresas se dedicam a melhorar a capacidade de inovar, com modelos Open Innovation (mentalidade século XXI).
    Sendo que inovação é a habilidade em criar e capturar valor econômico a partir da invenção.
    Será que nos enganamos a respeito da China? Será que os executivos chineses tem algum tipo de acesso a informações atualizadas sobre gestão da inovação? Por que será que eles, de acordo com o artigo da Business Week, conseguem enxergar a inovação com olhos século XXI enquanto os americanos estão atrelados a velhos paradigmas?

  • 2. Bruno Rondani  |  25/10/2008 at 21:42

    Sugiro darem uma olhada numa apresentação do Chesbrough onde ele discute os desafios e avanços dos direitos de propriedade intelectual e suas implicações para a aplicação de modelos de inovação baseado em open innovation:

    Não vejo que a open innovation seja a salvação do ocidente contra o oriente, ou o contrário, do oriente contra o ocidente. O paradigma da open innovation está se disseminando mundialmente e tem tomado diferentes rumos nas diferentes regiões. Basta dar uma olhada no recente livro lançado pela OCDE: “Open Innovation in Global Networks”.
    Sobre a questão da importância do fortalecimento da propriedade intelectual para o avanço de modelos baseados em open innovation o artigo: “Does Appropriability Enable or Retard Open Innovation?” de Joe West é uma excelente referência. Ele aprofunda a discussão sobre a relação entre criação e a captura de valor dos participantes de uma “value network” que adotam modelos de negócio baseados na open innovation. Se por um lado o fortalecimento dos IPRs facilitam a captura de valor, a disseminação aberta de conhecimento favorece as economias de escala pelo aumento da demanda.
    Um exemplo interessante e pertinente que explicita bem esse ponto está descrita no artigo do Chesbrough: “Microsoft Should Welcome Piracy in India and China” . Nesse artigo, Chesbrough mostra como uma empresa pode equilíbrar “apropriability” com “widespread adoption” dependendo da etapa e o contexto em que seu produto está sendo comercializada.

  • 3. Claudio Mazzola  |  28/10/2008 at 20:41

    Obrigado Verônica. Muito bom o artigo. Vale até notar que, em ligeira concordância com o post, indiretamente os autores afirmam que na China não há nas ordens do dia uma agenda pró-inovação.

    Conforme bem apontado, lá muito pior do que nos EUA, não há incentivos para capital de risco tampouco estímulo à PI, pilares estes que particularmente, considero fundamentais se não para a fomentação da inovação (em especial aberta), pelo menos para o aumento da transferência e comercialização de tecnologias.

    Logo, a solução é usar e abusar da criatividade com técnicas de gestão voltadas à inovação (assuntos bem dominados na terra do Tio Sam, mas pelo visto ainda não muito colocados em prática).

    Podemos dizer que o que ocorre na China é algo como:

    “a necessidade é mãe da inovação”.

    Apenas não posso depreender junto contigo que as tais empresas que fazem inovações incrementais na China sejam de fato genuinamente chinesas ou nascidas de executivos chineses, pois as referências são para as “privately held companies”, ou seja, entidades que não pertencem ao Partidão.

    Aproveitando a oportunidade faço também referência a um outro artigo da businessweek que explica melhor o que penso e que julgo talvez poder responder suas perguntas:

    China’s Innovation Barriers

    http://www.businessweek.com/print/globalbiz/content/dec2006/gb20061215_816544.htm

    Bruno:

    Obrigado também pelas referências. Pelo visto aparentam ser bem interessantes para comprovar que o sistema de patentes tem um papel muito mais importante para empresas/instituições/países que utilizam da prática da inovação aberta. Neste embalo sugiro leitura de um outro artigo:

    The Role of Patents in Fostering Open Innovation

    http://law.bepress.com/expresso/eps/1156/

    Cabe, porém, apontar que o objetivo do post não foi tratar como a PI deve ser mais bem utilizada, mas se ela é fundamental ou não em modelos de negócio baseados em inovação.

    O fortalecimento das IPRs per se já favorece a disseminação aberta do conhecimento. Ganhar mercado em economias de escala e com demanda reprimida é apenas uma opção. Nada impede, por exemplo, valer de licenças open source ou creative commons para alcançar tal fim. São direitos de PI que o detentor abre mão esperando um bem maior. Tudo é uma questão de escolhas mas, o estado deve aplicar a justiça e garantir esta liberdade. Acontece que na China não há lá muita justiça ou liberdade como bem sabemos…

    É isso.

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