Mercado farmacêutico descobre o modelo de Inovação Aberta
18/08/2008
Na revista UPpharma n. 106, edição de julho/agosto, saiu uma matéria interessante sobre o Open Innovation. Intitulada “As vantagens do conceito de inovação aberta”, a matéria apresenta um panorama do evento Open Innovation Seminar 2008 e uma entrevista com o Bruno Rondani. Por meio da entrevista é possível verificar a relação da inovação aberta com o mercado farmacêutico:
PERGUNTA:Como se aplica o conceito de Open Innovation no mercado farmacêutico brasileiro? Como se dá esse processo?
O Open Innovation tem sido aplicado hoje de diversas formas, por diferentes empresas em diferentes setores. A proposta do Open Innovation é que se abram para a geração e comercialização de inovação interagindo mais com o ambiente externo. No setor farmacêutico, o caso internacional mais emblemático é o da Eli Lilly. Com o intuito de aumentar a sua presença na Internet e fazer usos mais inteligentes da rede, a Eli Lilly lançou o programa e.Lilly. O primeiro projeto financiado por esse programa , chamado BountyChem, propôs à empresa que ela deveria expor problemas científicos e tecnológicos de seus projetos de pesquisa e desenvolvimento para o exterior. Imaginou-se que, ao fazer isso, a empresa poderia atrair um rede externa de cientistas dispostos a propor soluções mais rapidamente e a um menor custo. Para que esse modelo funcionasse eles logo perceberam que seria mais interessante se o BountyChem não se limitasse a expor os problemas da Eli Lilly, mas também de outras companhias. Como mais cientistas seriam atraídos, mais empresas teriam interesse em participar da rede. O resultado desse projeto é a empresa Innocentive, um portal que agencia um mercado de “problemas” e “soluções” para projetos de inovação com mais de 145 mil cientistas cadastrados.
O interessante neste caso foi a aposta da Eli Lilly de que haveriam pessoas fora da empresa capazes e dispostas a colaborar com seus projetos de inovação em troca de prêmios em dinheiro, diminuindo o tempo e o custo de seus projetos internos. Outro ponto interessante é que a Eli Lilly não conseguiu fazer isso sozinha, teve que criar uma startup para tocar esse projeto como um negócio e a plataforma teve que se abrir para outras empresas a fim de criar uma comunidade maior de colaboradores e, de fato, tornar o modelo sustentável.
Hoje existem diversas empresas que gerenciam redes de colaboradores similares à Innocentive em diversos setores.
Ações como essas poderiam ser iniciadas ou contar com uma participação maior de empresas e cientistas brasileiros.
Entretanto, o modelo de Open Innovation não se limita à criação de comunidades online e mercados para a inovação. O modelo pode ser aplicado de forma diferente. O Laboratório Cristália, por exemplo, foi muito eficaz em suas parcerias com universidades como USP, Unicamp, UFRJ e Universidade Federal do Amazonas, além do Instituto Butantan, Far-Manguinhos e Santa Casa de São Paulo, no desenvolvimento conjunto de projetos de inovação. O Cristália tem no momento mais de 25 projetos de pesquisa em andamento. Um exemplo de sucesso desses projetos foi o lançamento, que ocorreu este ano, de um medicamento contra disfunção erétil, o Helleva (carbonato de lodenafila), desenvolvido pelo laboratório brasileiro, desde a criação da molécula, em parceria com diversas instituições.
Se por um lado o modelo de Open Innovation está sendo muito bem recebido e adotado, inclusive por empresas nacionais para a geração de idéias e co-desenvolvimento de projetos, ainda está sendo pouco explorado um outro ponto fundamental: a comercialização de tecnologias geradas internamente por uma empresa por agentes externos com modelos de negócios mais apropriados para aproveitar a tecnologia desenvolvida.
PERGUNTA: Quais as vantagens para as empresas do setor?
A Inovação Aberta propõe um modelo mais adaptado ao cenário atual para a inovação. A inovação deixa de ser uma atividade vertical da empresa e passa a interagir mais com o ambiente externo. Como acontece em empresas de outros setores, o aproveitamento de idéias externas, assim como internas, multiplica as possibilidades de inovação. Isso representa uma possibilidade de criação de valor maior. A abertura da empresa para idéias externas diminue o risco dessa empresa perder oportunidades de mercado. Ao explorar novos mercados para as idéias geradas internamente, uma empresa que adota o modelo de Inovação Aberta aumenta o seu desempenho e gera novas fontes de receita em novos mercados.
O setor farmacêutico é essencialmente baseado em inovação. Entretanto, o custo para inovar nesse setor está cada vez maior. Estudos mostram que nos últimos 30 anos a taxa média de crescimento anual em receita no setor farmacêutico americano foi de 11%, enquanto que a taxa média anual em investimentos em P&D cresceu 15%. Sabemos que o modelo tradicional adotado na indústria farmacêutica é um modelo essencialmente fechado e vertical. Ou seja, novas abordagens como a da Eli Lilly são necessárias no setor.
PERGUNTA: Sabe-se que a indústria farmacêutica é uma das que mais investe em P&D. Em função da alta competividade desse mercado, crescimento dos genéricos e ainda forte presença dos similares não é muito arriscado para as farmacêuticas exporem suas invenções de uma forma aberta?
No setor farmacêutico não devemos entender a proposta do Open Innovation como algo que vá contra o modelo atual de proteção da propriedade intelectual por patentes ou segredo industrial. O modelo não propõe que as empresas devam indiscriminadamente expor seus projetos confidenciais a redes de colaboradores e parceiros externos. Tudo deve ser feito com muito critério. A Innocentive enfrentou, com sucesso, essa dificuldade de como expor os problemas científicos de seus clientes de forma informativa o suficiente para atrair cientistas a proporem soluções e, ao mesmo tempo, não revelarem informação confidencial do cliente.
Naturalmente, sempre haverá um certo grau de exposição de uma empresa que adota práticas de inovação mais aberta e em alguns casos será mais interessante para aquela empresa fazer tudo sozinha de forma fechada. Esse risco de exposição deve ser contrabalanceado com o risco de não conseguir resolver sozinho o problema de pesquisa e desenvolvimento ou custar e demorar muito mais para realizar determinado projeto de inovação.
O modelo de inovação aberta não vem para suplantar o modelo de inovação fechada, mas oferecer uma nova perspectiva mais ampla.
O modelo de inovação aberta não deve ser entendido como melhor do que o de inovação fechada simplesmente porque um é o novo e o outro é o antigo. Em alguns casos a empresas deverá preferir usar modelos mais abertos e em outros mais fechados. Isso deverá ser decidido pelos gestores de determinada empresa, de acordo com o projeto. Esse faremos de forma aberta, aquele faremos de forma fechada. Não acredito que a decisão deva ser feita por empresa ou por setor, ou seja, esta empresa deve adotar o Open Innovation, e aquela não, ou este setor deve aplicar o Open Innovation e aquele outro não. Ao meu ver, essa decisão deverá se dar projeto a projeto.
PERGUNTA: Especificamente no Brasil, existem investimentos (programas, incentivos etc.) por parte do Governo que estimulem a aplicação do conceito de Open Innovation?
Tenho procurado demonstrar que sim. Ainda que não seja uma política formal do governo “vamos adotar o Open Innovation como política pública de inovação” vemos que sim, as ações do governo tem esse viés de maior integração entre os diversos agentes do processo de inovação. A Lei de Inovação (2004) tem como objetivo melhorar a integração das universidades e centros de pesquisa no processo de inovação das empresas. A Lei do Bem (2005) foi recentemente alterada com a inclusão de um artigo conhecido como a Lei do Mec (2007), na qual os incentivos fiscais às empresas crescem se o projeto for desenvolvido em parceria com universidades e a propriedade intelectual compartilhada. As universidades têm trabalhado na estruturação de NITs (núcleos de inovação tecnológica) para facilitar a interação com as empresas no co-desenvolvimento de projetos e transferência de tecnologia. O número de incubadoras de empresas de base tecnológica tem crescido nas universidades e são vistas como importantes veículos de transferência de tecnologia da universidade para o mercado. A Finep, com recursos dos fundos setoriais, tem lançado constantemente editais públicos de fomento à inovação tecnológica para projetos em cooperação entre empresas e universidades.
Recentemente, realizamos o primeiro evento dedicado exclusivamente a Open Innovation e em uma das mesas de debate o foco era discutir exatamente se o Open Innovation traz ou não conceitos aplicáveis às políticas públicas de incentivo à inovação. A conclusão da mesa, composta por membros de entidades como ANPEI, PROTEC, FAPESP, INPI, FINEP e FIEP, foi que sim. Conforme mencionou Eduardo Costa, diretor de Inovação da Finep: “Existe um grande volume de capital para ser investido em inovação na FINEP. Precisamos de mais programas e idéias, como as que norteiam o Open Innovation”.
PERGUNTA: No caso das farmacêuticas nacionais, quais as vantagens/benefícios da adoção desse conceito, uma vez que, muitas dessas empresas, não têm o mesmo poder de investimento das multinacionais para investir em P&D?
É exatamente por isso que vemos o grande potencial do Open Innovation na indústria farmacêutica brasileira. Estamos vendo o modelo de inovação verticalizada e fechada erodindo na indústria farmacêutica nos EUA e Europa, que tem muito mais tradição em P&D. Os custos com inovação estão ficando inviáveis para o setor. China e Índia já representam hoje uma grande ameaça para as tradicionais firmas americanas e européias. No Brasil, passamos por um grande fortalecimento da indústria farmacêutica nacional baseado em produtos genéricos e similares. Apesar de alguns casos de sucesso, a indústria farmacêutica no Brasil ainda tem muito pouca tradição em P&D. Por outro lado, a ciência no Brasil avançou bastante e o sistema nacional de inovação se robusteceu nos últimos anos. Temos um cenário bastante favorável para a adoção de práticas de Open Innovation pelo setor: indústria amadurecida com capacidade de absorção de novas tecnologias, centros de pesquisa de excelência em áreas como química e bioquímica, recursos de fomento e financiamento público à inovação.
PERGUNTA: Como está hoje a aplicação do conceito de Open Innovation no Brasil? Qual o número de empresas que utliza esse conceito e qual a previsão para os próximos anos?
Recentemente, realizamos o primeiro evento dedicado exclusivamente a Inovação Aberta no Brasil e contamos com a presença de um público de cerca de 350 pessoas representando mais de 130 entidades e 13 estados diferentes. Realizamos uma breve pesquisa entre as empresas participantes para levantar quais as práticas de Inovação Aberta as empresas já adotam. Como resultado, as práticas mais citados foram parceria com universidades, centros de pesquisa, fornecedores e clientes para o desenvolvimento conjunto de novas tecnologias. Nenhuma empresa citou a comercialização de tecnologias desenvolvidas internamente e comercializadas externamente como uma prática comum. Ainda poucas empresas no Brasil já adotam o modelo de Inovação Aberta de forma explicita. O caso principal é o da Natura que lançou um programa formal em 2005. Outras empresas, como Telefônica, adotam o modelo em suas matrizes e começam a aplicá-lo a partir de programas explícitos no país. Em outros casos, empresas como Laboratório Cristália, Omnisys-Thales, Petrobras e Embraer adotam práticas de inovação aberta, porém ainda não possuem programas formais usando essa terminologia. Afinal, apesar do conceito ser novo, as práticas propostas pela Inovação Aberta não o são. Fazia falta um modelo para auxiliar as empresas a adotarem de forma mais integrada essas práticas. Com a disseminação do conceito, dada a receptividade inicial e os casos de sucesso no exterior e já alguns no Brasil, acreditamos que o número de empresas a adotarem o modelo irá se multiplicar.
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1.
Fabiana Grieco | 18/08/2008 at 21:45
Na última Veja, do dia 20 de agosto, saiu a matéria “O mercado virtual de boas idéias”, na seção Internet. A matéria apontou a Innocentive como “o maior site de intercâmbio tecnológico, científico e logístico” ao mostrar o modelo de sites que promovem a solução dos problemas das empresas.